Marcadores

sábado, 22 de junho de 2013

What Is Love? 14° capitulo prólogo


Capítulo 14 - Prólogo.

Justin's POV
A cadeira de balanço fazia seu movimento, indo e vindo, repetidas vezes, mas na mesma velocidade e intensidade de sempre. Eu fitava a paisagem lá fora; a neve acumulada na copa das árvores ia derretendo levemente, transformando-se em pequenas gotas de água que iriam, em algum dia, seguir seu curso natural e virar gás. 
Em uma mão minha, quase sem nenhum calor, pousava um copo semi vazio (ou semi cheio, dependendo do ponto de vista) de chocolate quente. Em meu colo, aquele pequeno serzinho de cabelos dourados, finos e lisos dormia, sua pequena mão direita enlaçava meu pescoço e na outra, seu ursinho, Teddy, repousava também, acalentado pelo movimento tranquilizante que meu abdômen fazia, sendo consequência da minha respiração e meus afagos em seus cabelos. Era o último dia do inverno, amanhã seria primavera. Ethan poderia andar de bicicleta pela rua novamente. Afinal, ele podia ter sua deficiência estampada em seu pequeno e frágil rosto. Mas ainda era uma criança. Ainda tinha o direito de brincar e sorrir. Era meu filho.
Memórias iam e vinham, debatendo-se contra meus neurônios e lutando por alguma liberdade.

- A capa do novo CD será inovadora! - Usher exclamou, sentado em uma das extremidades da extensa mesa de pinho; o lugar que transmitia status e ponderava respeito e admiração de mais da metade das pessoas presentes na sala, inclusive eu.
- Espero... - Scooter falou. Desde o dia na gravadora, ele sempre me apoiou, assim como Usher.
- Há uma garot... Mulher. Há uma mulher, em Iowa, que pinta quadros... Ela poderia fazer a arte da capa do álbum. Trouxe-lhes alguns trabalhos dela. - Maxwell apontava para o telão, no qual uma apresentação de slides passava com alguns desenhos da tal artista.
Alguns tinham traços definidos. Outros não passavam de borrões de tintas, sem nenhum sentido. Mas as cores que ela usava, as texturas visuais e tateáveis dela, possivelmente, transmitiam algum sentimento. Era um caso a se pensar, analisar, antes de dizer um não.
- Irei até o ateliê dela. Quero eu mesmo tratar da capa do meu CD, se Vossas Senhorias não se importarem.
Usher e Scooter se entreolharam.
- Você não está em turnê mesmo... - Usher disse. - O voo sairá amanhã, logo cedo. Durma cedo, beba bastante água. Scooter irá com você. Reunião terminada.
Eu iria para Iowa. Eu precisava espairecer os ânimos. SN, desde quando recebeu alta do hospital, fora embora. Para Moscow. Ela estava depressiva. Havia tentado se matar duas vezes dentro do hospital. Andrew conseguira acabar com o bom coração que ela tinha, afinal. Eu, para deixar de lado o maldito sofrimento que insistia em me abater, mergulhei em meus projetos pessoais.
Agora, cinco anos depois, eu tinha seis álbuns lançados. EU já havia atingido o apogeu da minha carreira incontáveis vezes. Mas eu me sentia incompleto. Eu não conseguia me envolver amorosamente com ninguém. Havia garotas que duravam uma ou duas noites. Mas nada superava as borboletas no meu estômago que SN causava. Por tal motivo, tentei esquecê-la. Deixar nossas lembranças em uma gaveta funda da minha memória.

x

- Por favor, senhores passageiros, sentem-se em suas poltronas. Estamos próximos de pousar no The Eastern Iowa Airport. Obrigado por escolher a American Airlines como operadora de viagem. Desejamo-lhes uma boa estadia em Iowa.
E eu senti meus pés, extremamente adormecidos, pisarem o asfalto desgastado da pista de pouso do aeroporto. Eu já havia vindo, em outra ocasião, para este estado da América. As garotas daqui eram bonitas. Tinham aquele 'quê' rústico que o interior proporcionava.
- Justin, arranjarei um local para a gente passar a noite. Vá em busca da tal artista... - Scooter me disse, entregando-me um papel pautado, dobrado. Com letras a mão, estava o nome de uma rua e um número.
- Tá. Ligue-me. - Eu disse, colocando minha mochila em minhas costas e indo em direção à área onde táxis esperavam por passageiros. Scooter se dirigiu à direção oposta.
- Bom dia. É o seu dia de sorte. Justin Bieber irá pegar o seu táxi! - Acenei para um homem gordo, baixo, com os cabelos, costeletas e bigodes grisalhos.
Entre os lábios, ele tinha um palito de dente, que dançava por eles freneticamente. O homem nada disse, apenas sinalizou para uma das portas traseiras, adentrando o veículo de cor amarela logo em seguida.
- Para onde, senhor? - O homem disse, destacando em sua voz grossa o sotaque típico do interior.
Apenas lhe joguei o papel dobrado.
- Sabes onde é?
- Claro! - Ele disse, encarando-me pelo retrovisor. Os pneus cantaram.

x

Eu ainda estava ponderando os motivos de estar extremamente gelado e com frio na frente do, um tanto estranho, prédio. A fachada era escura, tinha musgo e lodo espalhado por sua base. As paredes precisavam, e clamavam, por uma mão de tinta. Quem em sã consciência morava ali?
- Artistas e suas manias... - esbravejei e bufei antes de tocar a campanhia, vi-me extremamente trêmulo ao estender meu dedo indicador para apertar o interruptor. Por que diabos eu me sentia deste jeito... estranho?
A porta rangeu em um barulho estranho. O ar parou na metade do caminho entre minha cavidade nasal e minha traquéia. Aqueles olhos. Em um tom de verde intenso, que remetia, vagamente, a uma densa selva amazônica. Minhas pernas estremeceram e eu pigarreei.
- Vo-você? - Falei, tirando aquelas lembranças da gaveta mais escondida que havia no arquivo das minhas memórias.
- ! - Ela exclamou um grunhido qualquer, inaudível. - Entre. - Apenas uma única palavra solitária saltou de seus lábios na forma imperativa enquanto seus olhos fitavam seus tênis.
Eu sabia o motivo dela tentar evitar que nossos olhares criassem algum tipo de comunicação. Pior: eu fazia o mesmo.
Adentrei o cômodo. Grande. Espaçoso. Arejado. Claro. Com tintas, pincéis e telas acabadas e inacabadas espalhados. Fiz um barulho com a boca, tentando fazer com que o maldito silêncio se dissipasse no ambiente, tornando-o imensamente mais agradável.
- O Usher me ligou... - a voz dela tilintou em meus ouvidos, levantei meu olhar e ela apontava, com a cabeça, para uma cadeira em uma mesa redonda. Sentei-me e observei com os olhos ela se sentar também na cadeira ao meu lado. - A proposta é boa... A proposta é muito boa... - ela deu ênfase na penúltima palavra.
- Sim. Seu trabalho é... - virei meu pescoço alguns graus para a esquerda, fitei os quadros dela. Alguns tinham total sentido. Outros, para mim, eram apenas rabiscos. - Muito bom mesmo! - Exclamei, por fim.
Seus dedos, inquietos, brincavam com a bainha do trilho da mesa. Em um movimento rápido, ela deixou que a parte interna de seus braços ficassem à mostra. Lá estava. A maldita cicatriz, que parecia querer saltar para fora. A imagem da garota que eu amava caída, debruçada sobre o piso frio do hospital, mergulhada em uma poça de sangue saltou da 'gaveta' de memórias em um movimento rápido, passando como um slide na minha memória.
- É você... - murmurei, quase inaudivelmente, inconsciente das palavras que, agora, saíam de algum lugar fundo da minha garganta. Levantei meu olhar, olhando em sua direção através dos fios de cabelos que caíam sobre minha testa e, consequentemente, sobre meu olhar, tentando fixá-la na minha visão já embaçada. Malditos sentimentos que faziam lágrimas brotarem. Malditos sentimentos que os humanos tinham que desenvolver por outros seres humanos. Mil vezes malditos.
Ela demonstrou nervosismo. Levantou-se da cadeira e socou um pilar de concreto, apoiando sua cabeça em seu braço, soluçando ruidosamente. Levantei-me e fui em direção a ela, pisando firme e forte
 [n/a: -q]. Ela tinha um rabo de cavalo amarrado alto na cabeça e o comprimento, ainda castanho escuro, estava preso em uma trança apertada e bem feita. Ela usava uma calça jeans azul clara, um crocs laranja e uma blusa de moletom lilás com estampas roxas. Sua fisionomia não havia mudado. Ela continuava como há cinco, seis anos. Porém, tinha um corpo, se possível, mais definido. Estava alta, tinha a feição mais madura e um piercing que atravessava o lado direito da sua boca. Estava linda...
Pousei minhas mãos em seus ombros em um movimento ágil, nivelando a linha dos nossos olhares e encarando fundo a selva que havia em seus olhos um tanto vermelhos agora. O nó que havia estagnado em minha garganta durante cinco anos estava querendo desmanchar-se. Eu já não tinha consciência das palavras que saltariam da minha boca no instante seguinte.
- POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUÊ? - Eu a questionava e a sacudia intensamente. Lágrimas começaram a brotar de seus olhos e ela estava surpresa com minha reação, assim como eu. - POR QUE VOCÊ ME DEIXOU SOZINHO? POR QUÊ? POR QUÊ? POR QUE VOCÊ ARRUINOU AS NOSSAS VIDAS? ME DIZ! HUH? POR QUE DIABOS VOCÊ FORA EMBORA? - Eu segurava firme e sem a menor delicadeza em seus braços, apertando-os sem dó.
Ela abria e fechava a boca diversas vezes, a fim de pronunciar alguma coisa em sua defesa, mas as palavras eram diluídas por seu choro incessante. Seu olhar transmitia medo, arrependimento e alguma coisa mais que eu não conseguia distinguir. Estremeci. Deixei minhas mãos escorregarem por seus braços e tocarem seus punhos. Senti, no pulso direito, um pouco abaixo da linha da manga da blusa, sua cicatriz em alto relevo, destacando-se da pele. Passei o dedo indicador uma ou duas vezes pelo local, sentindo a aflição e as lembranças que aquilo me trazia à tona.
Sangue, sangue, sangue.
Sangue espalhado por todo o chão do minúsculo cubículo que o hospital denominava de banheiro. Seu rosto estava afundado em uma poça gigante de sangue. Seu corpo estava mergulhado em uma gigante poça de sangue que tingia em um tom aterrorizante de vermelho sua camisola anteriormente branca. O copo plástico com café quente se espatifou no chão. O desespero roubou de mim minha consciência e sanidade e, automaticamente, comecei a agir por impulso, gritando e clamando por algum tipo de ajuda, médica ou divina.
Quando ela estava melhor, ela se mudou para o outro lado do oceano, deixando-me sozinho.
Despertei de minhas confusões internas com seus dedos, pequenos e finos, tocando meu rosto. Seu olhar era curioso e algumas lágrimas ainda corriam.
- Você continua o mesmo... - ela tinha a deslumbração traduzida em sua voz. Ah, qual é! Eu não sou um alienígena! - Nem parece que tens quase vinte e três anos...
Sua ação me deixou sem reação alguma. Era como se suas palavras me desarmassem por completo, deixando-me extremamente na defensiva, sem nenhum ataque. Fora um ímpeto. Como se ela fosse um ímã e eu, um pedaço de metal inútil e sem vida. Colei ela junto ao meu corpo e a beijei, primeiro com um simples selar de lábios. Por que diabos eu estava fazendo isso? Com o mesmo sopetão que eu colei nossos corpos, eu os desgrudei. Meus olhos, vidrados, confusos e ilegíveis. Os olhos dela eram sempre indecifráveis. Ela, em um baque abafado por seus músculos e ossos, jogou-se contra a pilastra e por ela escorregou seu corpo, caindo sentada, abraçando seus joelhos e fungando baixo. Deixei meus sentimentos guiarem meu corpo e eu o senti tombar no chão. Ou eu estava realmente sem emoção alguma, extremamente frio por dentro, ou todas as emoções tinham me dopado de certa forma que eu já não as diferenciava; não sabia distinguir as boas das más e não sabia qual delas eu colocaria para fora. SA (seu apelido) ergueu seu olhar extremamente manhoso e vermelho.
- Por que diabos você voltou, Bieber? - Ela disse com a voz extremamente embargada. Ela levantou seu olhar, fitando-me por debaixo da leve e espaçada cortina que sua franja formava sob a linha de seus olhos. - Por quê? - Ela murmurou baixo. Bateu seu queixo denunciando o frio que a tomava interna e externamente. Ela começou a movimentar seu tórax em movimentos de vai e vem, batendo suas costas com violência no pilar. - Diga-me... Por quê?
Segurei em seus ombros, friccionando-os para baixo, forçando-a a parar de se bater contra a parede de alvenaria, dura e fria.
- Ei, ei! Olhe para mim. - Tentei ser firme. - OLHE PARA MIM, PORRA! - Exaltei-me e gritei com ela. Seu olhar me lembrou o olhar assustado e confuso de uma criancinha que eu conhecera alguns anos atrás, no Hospital de Queimados da Flórida.
- Eu juro que... Juro, Justin! - Ela balbuciou, totalmente sem nexo. Seus lábios começaram a adquirir uma tonalidade roxa, as veias de seu pescoço deram uma leve saltada e seu olhar se vidrou. Ela começou a repetir os mesmos movimentos de vai e vem com o tórax, mas, desta vez, ela batia com brutalidade e força suas costas na pilastra de alvenaria. - JUSTIN... EU... EU JURO! Juro... Juro... Juro... Juro... - ela repetia, alternando sua voz em alto e baixo tom. Ela batia seu queixo e tinha seus olhos verdes vidrados, sem reação alguma. Apertei mais minhas mão em seus ombros, forçando-a para que parasse com todo aquele processo de automutilação.
- PARE COM ISSO, ESTÁ LEGAL? PARE! - O desespero já tinha adentrado as minhas entranhas e tomado, em um assalto, minha consciência.
- ...
Segurei seu rosto entre as palmas da minha mão. Sua pele fria e delicada que estava molhada pelo suor que escorria, sem piedade alguma, entrou em contraste com a pele quente e grossa das minhas mãos, que acusava alguns machucadinhos na borda dos dedos por conta das cordas do violão. Ela continuava me fitando com seus olhos, implorando piedade, e que eu a perdoasse de algo. Mas eu a perdoaria do quê? De ter despertado o amor em um adolescente alcoólatra e corno? De tê-la feito sofrer, abortando o que seria seu filho? De ter ido embora sem ao menos se despedir? De ter deixado uma maldita carta que tinha sua letra impecável e seu cheiro impregnado no papel? As lágrimas debruçaram-se sobre a borda de seus olhos, decidindo se deviam ou não cair e se espatifar em algum lugar. Eu a abracei, apertando-a contra o meu corpo com todas as forças que eu tinha. As lágrimas escorriam pelo meu rosto e morriam, após deixar o gosto de mar nos meus lábios nos cabelos de SA (seu apelido). 

Remember those walls I built?
Well, baby they're tumbling down
Mas eu não podia deixar que o muro que eu demorei mais de quatro anos para erguer e proteger meu coração e meus sentimentos caísse em apenas meia hora. Eu simplesmente NÃOpodia. Se fosse para eu entregar os pontos, eu o faria, mas não antes de fazê-la sofrer. Por culpa dela, eu tinha me tornado menos amante, mais frio e menos sensível.
Separei nosso abraço e esfreguei meus olhos com as costas das minhas mãos, limpando as lágrimas que teimavam em cair deles. Maldita recaída. Mil vezes maldita. Tirei do bolso da minha calça um papel. Velho. Todo dobrado. Mas o cheiro inicial dele ainda estava lá. A letra, bonita e toda caligrafada, estava, em alguns pontos, borrados por conta das lágrimas que derramei lendo e relendo a carta. Pigarreei e SN me fitou, encostando suas costas na pilastra e com o olhar confuso. "Seja forte, Justin!", pensei comigo. Comecei a ler, palavra por palavra, engolindo o choro nas vírgulas e pontos da carta.

Dear Justin,
Quando estiver lendo essa maldita carta, você irá me odiar com todas as forças que possuir, isso é se já não o faz.
Diga-me, por que diabos você fora se envolver com uma assassina?
Diga-me, por que diabos você me tocou naquela noite e não me deixou mais em paz? POR QUÊ, porra? POR QUE VOCÊ SE TRANSFORMOU NO GAROTO PERFEITO?
Whatever.
Estou te deixando com grande aperto no coração. A cicatriz no meu pulso dói e eu já não enxergo o papel. E sim, o pouco de sangue que meu coração ainda bombeia grita seu nome. E minha pele chama por ti. Mas eu serei forte. Esqueça-me, tá?
Perdoe-me por ter assassinado algo que te pertencia também.
Perdoe-me.
Acabei de ler. O pranto já estava na minha garganta, preparando-se para se esvairar de supetão. Mas eu não deixaria que ele entregasse a minha fraqueza. Não queria que ela soubesse o quão fraco eu era perto dela.
- Lágrimas que eu derramei por ti, SS (seu sobrenome)? Foram incontáveis. Também foram incontáveis as noites que passei pensando em ti. POR QUE TUDO ISSO, SS (SEU SOBRENOME)?
- Eu... Eu... Eu... - ela tentava argumentar - perdoe-me... - ela mordeu o lábio inferior e abaixou a cabeça.
- É TUDO ISSO QUE VOCÊ SABE FALAR? SÓ ISSO VOCÊ CONSEGUE FALAR? AH, FAÇA-ME O FAVOR! - Eu já tinha perdido o controle. Já tinha perdido todos os sentimentos bons, se é que ainda restava algum em mim.
- Justin...
- HUH? O QUE VOCÊ QUER DE MIM? O QUÊ, SEU MONSTRO...
- Escute-me, está legal? ESCUTE-ME, PORRA. - Ela exclamou com a voz alta e trêmula. - Olhe para mim. - Ela ordenou. Ela tinha a voz firme agora. - Eu fiz o que fiz por medo. Ou por qualquer outro motivo que nem eu sei direito qual foi... O que você quer de mim? Já revirou todo o nosso passado... O MEU passado... O QUE VOCÊ AINDA QUER DE MIM? - Ela mantinha seu maxilar trincado e abraçava seu joelho.
Entreabri a minha boca diversas vezes. Por que ela me deixou tão sem reação assim?
- ESTÁ VENDO AQUILO ALI? - Ela continuou a falar alto. - EU TOMO TODOS OS DIAS, POR TUA CAUSA. CLARO QUE A CULPA NÃO É SUA, MAS PARTE DELA É. - Ela apontou para uns frascos brancos e caixas em cima do balcão que fazia a divisão da cozinha/sala de jantar. Levantei-me do chão e caminhei em direção ao balcão. E lá estava. Uma grande quantidade de remédios antidepressivos. Era a cartada final que eu precisava para me sentir desarmado e infeliz.
Droga.
- Er... Acho melhor... - eu cocei minha cabeça, puta saia justa a que eu tinha ficado agora. Sem nenhuma defesa, sem nenhum ataque. Eu me sentia totalmente nu, desprovido de artifício nenhum. - Acho melhor ir embora... Enfim...
E saí porta afora. Senti a brisa um tanto quente do interior dos Estados Unidos tocar o meu rosto e secar quase que instantaneamente as lágrimas que ainda caíam. Ver a SA (seu apelido) daquele jeito, dopando-se com quantidades extremamente grandes e exageradas de medicamentos para ficar bem consigo mesma me doía.
- Seu imbecil. - Eu falava comigo mesmo enquanto vagava, atraindo alguns olhares curiosos pela cidade. E este tempo todo eu me achando o certo. Achando que eu era o dono da verdade, quando, na real, eu não era dono de porra nenhuma.

x

O banho estava extremamente quente e confortável. Nada como água para levar todos os desgostos e tristezas que um dia proporcionava. Desliguei o chuveiro e abri o box do banheiro, vendo o contraste notável que o vapor do banho dentro do box fazia com o ar límpido e claro do lado de fora do box. Enrolei a toalha na minha cintura, mal enxugando a água, que ainda escorria por meu corpo. Sacudi minha cabeça, fazendo com que as gotas grandes e grossas de água se espatifassem no espelho e nos azulejos do banheiro. Ajeitei-os com os dedos. Saí do banheiro batendo a porta com força. Scooter tinha ido jantar com não-sei-quem, velho conhecido dele, iríamos voltar para Los Angeles amanhã logo cedo; e pelo visto, sem nenhum contrato assinado.
Abri o closet enquanto procurava uma boxer para vestir. Olhei de soslaio para o laptop, aberto e ligado, em cima da escrivaninha. Estava aberto no The Sun, logo no pior tablóide de todos. E adivinha quem era a manchete?

'Bieber vagando triste por Iowa.' 
Era a porra da manchete estampada com uma foto minha, uma ou duas quadras distantes do atêlie da SN.
- Droga... Nem se afundar em uma maldita depressão se pode mais... - comecei a falar comigo mesmo. - Qual é? - Bufei.
Vesti uma boxer, a primeira que vi, rapidamente. E a porra do telefone tocou.
- Alô.
- Senhor Bieber? Tem visita para o senhor...
"A essa hora?", pensei.
- Quem é?
- Senhorita SS (seu sobrenome), senhor... - a recepcionista disse, esperando ouvir gritos e xingamentos.
"Senhorita SS (seu sobrenome)" me remetia vagamente aos tempos de colegial, quando os professores chamavam SN pelo sobrenome para completar alguma informação. Meu estômago se revirou com a lembrança.
- Senhor Bieber? - A voz da recepcionista interrogava do outro lado da linha.
- P-pode deixá-la subir... - disse, engasgando-me com minhas próprias palavras, saliva e lembranças.
Que porra ela iria desenterrar dessa vez? Que mísera lembrança ela iria resgatar de um oceano azul, gelado e fundo?
Sentei-me na ponta da cama. Alguns minutos depois, a campanhia tocou. Respirei fundo, como se não houvesse oxigênio na superfície do quarto. Peguei o cartão de plástico em cima da escrivaninha e passei pela fenda eletrônica que estava presa na porta, fazendo com que a luz verde se acendesse e um 'BIP' fosse escutado, indicando que a porta estava aberta. Voltei para perto da cama e deixei que a própria SS (seu sobrenome) abrisse a porta. E em menos de dois segundos, a porta abriu e SN apareceu. Eu a fitei, medi-a com os olhos e não acreditei.
- Então, era esse tipo de lembrança que você veio resgatar? - Ela arqueou a sobrancelha.
Lá estava ela, vestida com o mesmo vestido vermelho daquela noite. Ele, claro, estava mais curto, deixando grande parte de suas coxas à mostra, o que fazia com que eu me sentisse vivo de novo, há quanto tempo eu não sentia "isso" por uma garota? Ela não tinha tanta maquiagem como na noite do aniversário de Carol, mas tinha o bastante para que seus olhos, grandes, confusos e verdes, estivessem em destaque de todo o seu rosto. Ela não usava os sapatos de salto alto, e sim um tênis extremamente colorido e grande para seus pequenos pés. E ela estava parada, exatamente na linha que dividia o quarto e o corredor.
- Você nem ao menos me deixou acabar de falar... - ela disse com um tom baixo, calmo e controlado.
- Entre... - eu disse, tomando, mais uma vez, todo o ar presente no ambiente do quarto.
Ela deu três passos para frente. Fechou a porta. Deu um passo para trás. Eu mantive meu silêncio. O que eu ia dizer, sendo que as palavras simplesmente não nasciam nas minhas cordas vocais?
- Eu-eu... - ela respirou pesadamente - não sei o que vim fazer aqui... Desculpe...
Ela deu meia volta, ameaçando sair. De fato, ela saíria, se a porta não tivesse sido, automaticamente, trancada. Eu dei passos largos e apressados na direção dela. Seu cheiro estava envenenando minhas células pouco a pouco. Em um movimento rápido, segurei seu braço, desta vez não apertando-o, e virei-a. Seu olhar estava alinhado com o meu, sua respiração rápida, pesada e quente vinha de encontro com meu tórax, fazendo com que meu pelos se eriçassem. Dei apenas um único passo, acabando com a distância que tinha entre nós. Neste momento, eu sabia que eu não sabia de porra nenhuma. Ela abria e fechava seus lábios repetidas vezes, mas, assim como eu, suas cordas vocais simplesmente não vibravam. Deslizei minhas mãos por seus braços desnudos e segurei em suas mãos, entrelaçando nossos dedos e levantando-as na direção de nossos queixos.
- Eu... odeio... me sentir... assim... perto... de... ti... - eu balbuciei, vagarosamente, apreciando cada detalhe dos seus olhos emoldurados fortemente com rímel, lápis e delineador preto.
Ela fitou meus olhos e depois desviou o olhar para os meus lábios. Ela se esticou e ficou na ponta dos pés. Fechei e abri os olhos vagarosamente, indicando que ela podia continuar. E em pouquíssimos instantes depois, senti seus lábios fazendo pressão sobre os meus. Instintivamente, enlacei-a pela cintura, puxando-a de encontro com meu corpo. Ela enlaçou meu pescoço com seus braços. Eu senti falta daquele toque, daquele cheiro, daqueles lábios. Nenhuma menininha que eu comi nesse tempo fora capaz de substituir seu toque. NENHUMA.
Tentei arriscar e forcei a passagem da minha língua. Ela logo cedeu e minha língua encontrou nova e finalmente a sua. Bailaram, dançaram, tocaram-se, acariciaram-se sem medo. Logo, o calor não deixava que meus ossos das pernas as sustentassem. Separei, depois de muito tempo, e intensamente ofegante, nossos lábios. Havia palavras para serem ditas neste momento? Aproximamo-nos de forma extremamente rápida e brusca, novamente. Eu precisava senti-la de novo. O beijo fora, de cara, rápido e intenso. Era como se "eu preciso de ti" estivesse codificado em cada gota de saliva e em cada carícia que era trocada. Suas pequeninas mãos caminhavam por meu tórax nu, causando um intenso e extremo arrepio na minha espinha. Ousei em percorrer seu ombro desnudo, redescobrindo cada pedaço de pele novamente. O beijo se partiu, precisávamos respirar. Ela me abraçou, afundando seu queixo na curva do meu pescoço e ombro.
- Continue, por favor. - Ela suplicou. Suas palavras denunciavam que ela queria aquilo tanto quanto eu.
Peguei-a no colo e caminhei na direção da cama de casal. Ela fora se desfazendo, com grande facilidade, de seus enormes tênis. Coloquei-a na cama sentada e me sentei ao seu lado. Respirei fundo e segurei em sua mão. Ela olhou para mim e mordeu o piercing, assentindo com a cabeça. Pousei minha mão na lateral de seu rosto e o aproximei para mim. Comecei um beijo calmo que logo deu lugar a um beijo extremamente selvagem e cheio de desejo. Deslizei minhas mãos até o zíper traseiro de seu vestido e corri-o para baixo, fazendo abrir e libertar seus seios. Ela, sem partir o beijo, acabou de retirar o vestido, que havia se tornado um incômodo no momento. Eu tirei a toalha e me arrependi de ter colocado a maldita boxer. Em pouco tempo, estávamos completamente nus e suados. Posicionei-me em cima dela, apoiando minhas mãos uma de cada lado de seu rosto. Suas mãos percorriam minhas costas, arranhando-a e deixando marcas por lá. Grudei nossas testas e mordi meu lábio inferior. E a penetrei. Em alguns momentos, eu já sabia o ritmo no qual deveria me movimentar. Alcançamos nosso máximo e tombei para o lado, cansado e ofegante. Puxei-a manhosamente para recostar sua cabeça em meu peito suado.
- Sabes... Fora a primeira vez que fizemos amor em uma cama... - ela disse sem erguer o olhar para mim... Como um casal... - completou.
- É o que somos, não? - Eu disse, fitando algo extremamente interessante na porta, que eu não sabia o que era.
Ela levantou o olhar, seus cabelos grudavam levemente em sua testa. Tinha uma sobrancelha arqueada e a interrogação estampada em sua expressão.
- Somos? - Ela interrogou.
- Somos. - Repeti sua frase, só que sem a interrogação embargada na palavra, apenas uma afirmação. Apenas a afirmação que mudaria nossas vidas.


- Justin? - Despertei do meu "sono" ao ouvir SN dizer em um baixo tom de voz, encostando uma de suas mãos no meu ombro. Eu sorri. - Ele dormiu? - Ela completou.
Estiquei meu pescoço e a fitei.
- Dormiu... - falei no mesmo tom de voz que ela.
Ela o pegou no colo, deixando com que seu ursinho e companheiro caísse no chão. Levantei-me, pegando com a mão desocupada o pequeno ursinho. Saímos do quarto principal da casa, onde eu e SA (seu apelido) dormíamos, e caminhamos alguns metros, entrando no quarto das crianças. Sim, agora eu estava completo. Jasmyn não tinha acordado esta noite, diferentemente de Ethan.
SA (seu apelido) colocou-o no berço da esquerda, que tinha cobertores em azul claro. Caminhei até o berço de Jasmyn e a cobri direito, depositando um beijo no alto de sua cabeça. Abracei SA (seu apelido) pela cintura e saímos do quarto. Inconscientemente, eu tinha um sorriso brincando em meus lábios.
- Por que estás sorrindo como tolo? - SA (seu apelido) me perguntou, fitando minha face.
- Eu, finalmente, descobri o que é o amor... - respondi, sincero e feliz. 
Esta era uma descoberta e tanto para mim. Virei-a de frente para mim e a beijei doce e carinhosamente.

FIM.

Nenhum comentário:

Postar um comentário