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sábado, 22 de junho de 2013

What Is Love? 13° capitulo


Capítulo 13.
(N/A: http://www.youtube.com/watch?v=wdxTA0GHV54, por obséquio. Ouçam durante a leitura!)

Justin's POV
A chave se chocou contra o vidro da mesinha de centro da minha sala. Em meus lábios repousava um sorriso largo e que precisava de mais lábios para crescer e ser livre. E eu sei exatamente quais eram os lábios que eu precisava.
Joguei o peso do meu corpo sobre o sofá de couro branco e chutei meus tênis - com os pés mesmo - para algum canto da casa. Fiquei ali, absorto em minhas lembranças e memórias, na sala. Eu precisava de apenas uma pele para tocar, um sorriso para ver e um cheiro para sentir.

5 horas antes.

- YOOO! Usher! Este é Justin Bieber, um aluno do Magnólia High School. - Scooter acenava a mão freneticamente junto com o homem moreno de cabelo raso e dentes extremamente brancos, com quem eu já tinha cantado e entonado várias de suas músicas. Meu coração não parava de dar 
flips dentro do meu peito. Os quatro olhos de ambos brilhavam de forma intensa, mas, creio eu, que não brilhavam mais do que os meus. - Ele tem um talento incrível! Sua voz combina com melodias próprias de uma forma sincronizada e... Você tem que ouvi-lo cantar e tocar.
Trêmulo. Suado. Com frio. Com calor. Com a boca seca. Este era eu quando Usher, o renomado cantor de hip hop e respeitado por muitos, dirigiu o olhar para mim. Fazia muito tempo que a insegurança não circulava por entre as minhas veias, junto com a adrenalina e o sangue.
Engoli seco.
- Prazer! Muito obrigado por arranjar este tempo para me ouvir! Obrigado mesmo! - As palavras se embolavam mais e mais nas minhas cordas vocais e eu cheguei a pensar que seria asfixiado por elas.
- O prazer é meu, boy! Se o Scooter disse que eu "preciso" ouvir é porque é MUITO bom! - Ele gesticulava, piscava e sorria com tamanha naturalidade que me assustava.
Usher, Scooter e mais algumas pessoas que meu intelecto era, no momento, incapaz de definir quem eram conversaram sobre mais algumas coisas. Eu fiquei absorto em meus pensamentos, medos e em SN. Eu cantaria para ela. Eu cantaria por ela. Afinal, boa parte das músicas que escrevi falavam sobre ela e os sentimentos que ela despertara em mim.
- Preparado, Justin? - A voz de Scooter me despertou do meu "ponto morto".
Uma melodia assombrou minha mente. Era a música que mais me marcava e era do Usher. Juntando o útil com o agradável, pensei em cantar algo que me descrevesse e faria uma boa nota com Usher.
Apenas assenti com a cabeça e deixei que meu inconsciente me levasse para a sala que tinha uma das paredes de vidro espelhado, um banco e um violão. Automaticamente, sentei-me no banco, posicionei o violão em meu colo, comecei a dedilhar suas cordas de náilon e as notas saíram da maneira mais natural e nervosa possível.
When you feel it in your body, that you found somebody who
makes you change your ways, like hanging with your crew
said you act like you're ready, but you don't really know,
and everything in your past you wanna let it go
I've been there, done it, humped around
after all that, this is what I've found
nobody wants to be alone
if you're touched by the words in this song, then maybe? 

Eu estava fazendo o máximo que eu podia para fazer minha voz combinar com a voz do Usher e alcançar as mesmas notas que ele alcançou. Eu batia meu dedão na madeira do violão provocando leves batidas, que lembravam os samples da música original.
You got it you got it bad
when you're on the phone, hang up and you call right back
you got it you got it bad
if you miss a day without your friend your whole life's offtrack
Know you got it bad when you're stuck in the house
you don't wanna have fun, 'cause all you think about
you got it bad when you're out with someone
but you keep on thinking bout somebody else
you got it bad
when you say that you love em, and you really know
everything that used to matter don't matter no more
like my money, all my cars
(you can have it all )
flowers, cards and candy
(I do it just cause I)
said I'm fortunate, to have you girl
want you to know, I really adore you?

Em poucos segundos, eu já tocava naturalmente, como se eu fizesse isso sempre. Minha mente vagava para lugares longes daquele estúdio e para outra data. Lembranças que eu sabia que existiam, só não sabia como elas voltaram.
- Justin... Desde o 6º ano, eu sinto uma certa atração por você. Não é física nem mental. Eu te amo. - Ela falou de uma vez só, atropelando-se nas próprias palavras. Por um momento, senti dó da pequena criatura. Por um momento. Soltei a gargalhada mais maléfica que eu conseguiria soltar em alguma situação. Ah, pelo amor de Deus! Nem na morte que eu namoraria com aquela criatura esquisita, normal e desengonçada.
- Você realmente acha que tem alguma chance de a gente ter um relacionamento sério? Um beijo eu até dou, mas um namoro? - Falei. O momento de dó que eu senti segundos atrás voltou e eu a beijei rapidamente. Justin Bieber também é caridoso. Lancei um olhar intimidante para ela e voltei para o meu grupo de convívio social, todos riam da pobre menina que eu ao menos sabia o nome.
Automaticamente, assimilei os olhos grandes e verdes da menina da formatura do 9º ano aos de SN. Era daí que eu a conhecia.
O sentimento de remorso subiu por meu tronco, dopando minhas células e me fazendo refém dos meus próprios atos.
All yall people who knows what's goin on
look at your mate and help me sing my song
tell her I'm your man, you're my girl
I'm gonna tell it to the whole wide world
ladies say I'm your girl, you're my man
promise to love you the best I can
see I've been there, done it, humped around
after all that, this is what I've found
everyone of y'all are juss like me
it's too bad that you can't see

- Justin. Acorde. Eu preciso de você... Deus, você poderia ter me colocado entre o poste e o carro. Não iria fazer diferença. Mas por quê ele? Eu... eu ainda te amo...
Agora tudo fazia sentido. A voz que vinha me atormentando por um bom tempo em meus sonhos era dela. Ela desejou ter sofrido o acidente no meu lugar. Ela desejou, quiçá, ter morrido no meu lugar. Por que ela tinha que ter tão bom coração enquanto eu só pensava em comê-la?
That you got it bad
you got it you got it bad
when you're on the phone, hang up then you call right back
you got it you got it bad
if you miss a day without your friend your whole life's offtrack
you got it bad when you're stuck in the house
you don't wanna have fun, it's all you think about
you got it bad when you're out with someone
but you keep on thinking about somebody else
you got it bad 

Finalizei a música e saí da sala, deixando-a como estava. Usher, Scooter e as outras pessoas estavam com sorrisos de orelha a orelha. Eu sorria por fora também, mas estava sendo falso, já que as lembranças que vieram à tona lá dentro, enquanto eu tocava, causaram em mim um efeito de culpa que eu não provava há tempos. Eu não sabia o que pensar, o que dizer e o que fazer para me redimir. Mas aquele sentimento estava me consumindo por dentro.


Levantei-me do sofá e peguei a chave que minutos antes eu havia jogado violentamente na mesa de centro. Arrumei meu cabelo com as mãos e coloquei meu boné. Já era tarde da madrugada. Eu havia ficado mais de nove horas no estúdio acertando com minha mãe os detalhes da minha assinatura com o selo do Usher.
Em poucos minutos, eu já estava dirigindo em direção à casa de SN. Eu iria me desculpar por tê-la humilhado em plena festa de formatura. Eu estava sendo movido pela minha culpa e adrenalina, automaticamente eu havia me auto-guiado em direção à casa de SA (seu apelido).
Estacionei na rua que era visão de seu quarto, que estava com uma penumbra densa, porém, ao fundo, via-se uma luz, a de um abajur ou do banheiro.
Tirei a chave da ignição, coloquei-a no bolso da minha calça, ajeitei meu boné e saí do carro. Dei alguns poucos passos em direção à porta de entrada da casa dela. A noite estava muito fria, porém, excepcionalmente, não nevava. O céu estava colorido em um tom profundo e intenso de azul. Um azul que eu desconhecia. Havia poucas estrelas. Minha respiração estava ruidosa, porém, calma. Subi um pequeno lance de escada com três degraus feitos de alvenaria laranja, o que aumentava ainda mais o charme da casa, que me lembrava remotamente as casas dos condados ingleses, com charme rústico.
Apertei a campainha inúmeras vezes e nenhuma luz acendia ou apagava. Minhas mãos começaram a, em pleno inverno, suar como bicas e meu coração entrou em uma arritmia notável. Bati na porta incessantemente. Nenhuma resposta obtida, novamente. Onde diabos esta garota havia se metido em plena madrugada? Esbocei forçar a fechadura da porta, mas esta estava trancada.
Tomei uma distância considerável e fui para um ponto, no meio da rua, onde eu conseguiria enxergar a fachada da casa como um todo. Lá estava, seu quarto, mal iluminado. 
- Ela tem que estar aí dentro. - Murmurei para mim.
A janela de seu quarto estava entreaberta. Avistei uma árvore, que estava - por obra divina - posicionada um pouco à esquerda da janela de seu quarto. Meus neurônios funcionavam freneticamente, movidos por pura adrenalina. Uma sensação esquisita se apoderou das minhas células e me fez sentir de um jeito desesperado e hiperativo.
Com agilidade, comecei a escalar a árvore. As pequenas farpas que saíam do caule da árvore penetravam, em pequenos furos, minha mão. As folhas estavam molhadas e geladas. Mas eu não me importava. Eu queria chegar logo na porra da janela e ver o que se passava dentro daquela casa. Não. Eu não estava no meu estado normal. As gotas de água se misturavam com o suor que já começava a brotar em meus poros. Em alguns segundos, eu já alcançava o parapeito da janela com minha mão esquerda e me segurava em um dos galhos da árvore com a mão direita. Respirei fundo, aspirando o ar gélido de inverno. Meus pulmões se petrificaram em recorrência do ar extremamente gelado. Fiz movimentos, que em uma situação calma seriam impossíveis de serem feitos, e quando dei por mim, estava dentro do quarto quente e aconchegante de SN. Vazio e mergulhado em uma penumbra densa e escura. A luz amarelada era - como eu havia pensado - proveniente do banheiro, que estava com a porta entreaberta.
Desfaleci, por alguns segundos, ao ver os cabelos negros da SA (seu apelido) nivelados com o chão. Subitamente, dirigi-me até o banheiro, abrindo a porta violentamente. Encontrei-a caída no chão, com os lábios roxos e caixas de remédios em cima do lavatório. O desespero atingiu-me como um raio. Eu me agachei a seu lado e coloquei minhas mãos em seus ombros, fazendo pressão sobre eles, e comecei a sacudi-la. Ela não respondia, eu chamava seu nome desesperadamente em um tom alto que deveria acordar os vizinhos, principalmente sendo a hora que era, mas nenhuma resposta fora obtida. Coloquei sua cabeça em meu colo e dei-lhe leves tapinhas na bochecha, nem assim ela abriu os olhos. Ela estava fria, os lábios roxos demonstravam que ela estava ali havia bastante tempo, o que fez meu desespero aumentar ainda mais. Lágrimas caíam intensa e rudemente dos meus olhos, eu estava mais desesperado do que jamais estive. Já havia desistido de travar uma guerra contra o choro que nascia no âmago da minha alma. Lá estava a menina que tinha feito eu ver a vida e os sentimentos sob uma nova perspectiva, caída e inconsciente no chão.
Hospital, aquela palavrinha brilhando em um outdoor em cores fosforescentes brilhou na minha mente, agora que sabia o que tinha que fazer. Peguei-a no colo o mais rápido que pude, não por ela ser pesada, mas sim por que minhas pernas tremiam mais do que bambu em tempestade tropical.
Enfiei, com grande dificuldade, as caixas de remédio no bolso do meu agasalho, juntamente com as chaves do carro e do meu apartamento.

4 anos atrás.

Fazia um frio intenso, meus lábios, pele e alma estavam extremamente congelados. A neve caía sem nenhum sinal de parar. Eu estava ainda perplexo com o sentimento angustiante e tenebroso que eu sentira mais cedo, durante a aula. As lágrimas quentes e salgadas, sem nenhuma explicação cabível, começaram a rolar.
- Justin, vá pegar a Molly no trabalho. Está frio e ela não se agasalhou corretamente. - Minha mãe super protetora dizia. Eu queria, simplesmente, poder ignorá-la, mas eu não podia. Pensei no frio que Molly poderia sentir ao deixar o ambiente morno da lanchonete.
Levantei-me do sofá, deixando visível em minhas feições e em meus movimentos a minha má vontade. Peguei o casaco que minha mãe estendera na minha direção e saí da casa, sentindo a brisa gelada de inverno acariciar, violentamente, a minha pele quente.
Caminhei lentamente pelas ruas frias, movimentadas e úmidas em direção à lanchonete onde Molly trabalhava. A fachada totalmente iluminada da lanchonete se fez visível em alguns minutos de caminhada. Molly, com seus cabelos curtos e loiros, estava parada lá com um sorriso um tanto quanto estranho estampado no rosto. Acenei para ela e ela retribuiu, vindo em minha direção.
Tudo acontecera muito rápido. Ela caiu violentamente contra o asfalto coberto por neve e água.
- MOLLY! - Gritei, deixando seu nome escapar junto com as lágrimas quentes, salgadas e esmagadoras. Corri em sua direção e apoiei sua cabeça em meu colo. Minhas lágrimas pingavam em seu rosto sem nenhuma piedade para com sua pele fria, pálida e sem vida. - Alguém... Alguém... Por favor... Uma ambulân...ci-cia... - falei, atropelando-me em meus soluços, choro, angústia e desespero. Tudo o que se subseguiu passou em branco por minha memória.
Vi Molly dar seu último suspiro em meus braços. Ela fora vítima de uma doença silenciosa e avassaladora. Só dias mais tarde descobrimos que uma leucemia a matara. Só descobrimos isso quando não havia mais chance alguma de fazê-la sorrir novamente.
Uma incrível depressão se apoderou do meu ser interior, exterior e mental. Qualquer música, brisa, toque, foto, movimento. Tudo trazia à tona a maldita noite em que ela deu seu último suspiro em meu braços.


Dias atuais.

Retornei dos meus desvaneios nostálgicos em um estalo. Desci até o pavimento inferior da casa, passando pelas quase duas dezenas de degraus com pressa e dificuldade. Avistei o sofá de um tom escuro de vermelho. Combinava com as paredes em tom salmão e os móveis em tom tabaco mesclado com branco. Coloquei-a delicada e rapidamente no sofá, tendo um especial cuidado com sua cabeça. Desenlacei-a cuidadosamente dos meus braços. Encostei uma das minhas mãos em seu tórax, pouco acima dos seus - fartos - seios. Seus batimentos cardíacos estavam demasiadamente tranquilos e calmos. Seu abdômen praticamente não subia e descia, denunciando o ritmo de sua respiração. Segurei sua mão mole, sem sustentação, fria, com a pele fina, e mordi meu lábio inferior, depositando nele toda a minha aflição, urgência e desespero. Consegui sentir algum vestígio de sangue misturado à minha saliva sendo absorvido pelas papilas presentes em minha língua. Levantei minha cabeça, curvando meu pescoço para trás, tentando engolir o nó que começou a se formar na minha garganta, e queria a todo custo domar meu cérebro e impedir-me de agir racionalmente naquele momento. A luz branca, fluorescente e clara da sala começou a ficar embaçada por conta das lágrimas que rolavam horizontalmente do meu rosto, caindo em um ato suicida no piso frio da sala. Mas não era hora de lamentar possíveis erros e condenações. Eu precisava agir e tirar SN dali. Apalpei os bolsos que se faziam presentes em minhas vestimentas à procura da chave do carro. Quando a encontrei, apertei-a fortemente contra a palma da minha mão e peguei SN no colo. Caminhei cerca de doze ou catorze passos em direção à porta, destrancando-a com uma certa dificuldade. Atravessei a rua, cambaleando devido ao grande tremor em minhas pernas, e logo cheguei ao carro. Apertei o primeiro botão que senti no chaveiro do carro, ouvindo o conhecido barulho do alarme dele. Quando este estava destrancado, abri a porta de trás e coloquei SN lá com todo o cuidado, prendendo seu tronco com o cinto de segurança. Dei meia volta em torno do veículo e assumi a posição de motorista. Liguei o carro e dirigi com calma, porém, totalmente concentrado em meu trajeto. Logo o enorme letreiro de fundo branco com letras garrafais verdes anunciava: HOSPITAL - EMERGÊNCIA. Estacionei ao lado da calçada de modo que os pneus do lado esquerdo tomassem conta de todo o meio fio e relassem, de leve, no pequeno desnível da calçada.

SN's POV
Eu não sentia nada. Nem dor. Nem alívio. Nem tontura. Nem secura na boca. Nem minha cabeça doía. Não sentia absolutamente nada. Eu estava imune a qualquer mal. A qualquer dor. A qualquer sensação, sendo mais verídica. Eu me sentia leve. Extremamente leve.
Olhei ao meu redor, não entendendo porra nenhuma da situação. Havia uma garota pálida e aparentemente sem vida deitada em uma cama clínica. Lá estava o meu príncipe, o meu anjo, o guri que fazia meu sangue ser bombeado. Pálido com os lábios secos, com os olhos inchados, as veias das mãos levemente saltadas e roxas, denunciando o frio que ele sentia no momento. Ele estava estático e absorto, mais sem vida do que a garota na cama. Aproximei-me dele vagarosamente, sentindo meus pés descalços tocarem o chão gelado e branco do hospital. Cheguei perto da cama. Incrivelmente me vi. A base de soro e outros remédios, respirando com dificuldade e sem brilho algum. Levei um choque. Como diabos eu estava me vendo de outro ponto de vista? Pisquei meus olhos algumas (muitas) vezes. Isso tinha que ser um sonho. Isso tinha que ser um delírio. Mas não. Eu estava lá, quer dizer, eu estava aqui. Eu estava passando por uma experiência estranha, porém, extraordinária. Olhei pela janela e a aurora linda e lilás surgia ao horizonte. O movimento na rua aumentava gradativamente. O gelo do inverno aumentava conforme a neve começava a cair. Mas eu não sentia frio. Não sentia nada. Aproximei-me mais de Justin e tentei tocá-lo, mas não senti sua pele macia e aveludada entrar em contato com a pele dos meus dedos. Uma lágrima solitária escorreu do meu olhar, dependurando-se no fim do meu rosto, decidindo se caía ou não. Antes que qualquer decisão fosse tomada, interrompi seu curso, limpando-a com as costas da mão.
- Eu quero tocá-lo. Não quero ser isto. Por favor, Deus. Deixe-me tocá-lo, nem que seja por uma última vez... - falei, mas algo me disse interiormente que ninguém ouvira.
- Justin? - Uma voz grossa, rouca e séria disse, abrindo a janela e fazendo com que uma corrente de ar fizesse meus cabelos se movimentarem, debatendo-se em meu rosto.
Justin levantou sua cabeça, antes recostada nas costas da poltrona de cor verde musgo. Seus olhos estavam opacos, sem brilho e sem lubrificação. Justin parecia ter levado uma surra ou coisa pior.
- Pois não, doutor? - Ele fungou baixo, falou com a voz rouca e se levantou da cadeira.
O homem de olhos negros e pequenos, cabelos brancos, vestimentas extremamente brancas e cenho preocupado engoliu seco.
- Notícias... nada boas. - O homem falou, relutando contra o instinto paterno e fazendo aflorar, em algum lugar de seu ser, o profissionalismo que a situação pedia.
Justin, internamente, desesperou-se. Sua respiração ficara ofegante, sua expressão, chorosa, e seu olhar, perdido.
- A garota estava grávida... - o médico continuou - estava. - Concluiu, lutando intensamente contra o pranto que começava a se debater em suas células nervosas. - Ela ingeriu uma enorme quantidade de remédio abortivo.
Justin estava em choque, escutando tudo o que o médico dizia, mas ele não ouvia, creio eu. Seu cérebro estava incapaz de processar a mensagem que as palavras do médico transmitiam.
- Há muito remédio no organismo dela ainda... Mas ela está bem... Desculpe-me, filho - o médico se desculpou, sem relutar contra as lágrimas. - O feto está morto.
Justin permaneceu em seu estado robótico. A diferença era que o pranto se manifestava nas lágrimas.
- Desculpe-me, amor. - Falei com a voz embargada. O demônio interior com o qual eu lutava contra há muito tempo estava ganhando a guerra. Ele iria me matar aos poucos. Ia não. Já o fazia.
- Mas o corpo dela está incapaz de expelir o feto. Teremos que intervir.
Um baque. Um baque fora tudo o que eu senti. Meu coração tinha parado de bombear o meu sangue. O ar se petrificara em meus pulmões e eu me senti vazia.
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
- Teremos que intervir...
A voz do médico dizia de novo, de novo, mais uma vez, outra e de novo.
Afinal, que tipo de monstro eu era? Já não bastava eu ter dopado e matado o feto friamente? Ele ainda tinha que ser mutilado? QUE CORAÇÃO NEGRO BATIA EM MEU PEITO, PORRA? MEU CORAÇÃO BOMBEAVA VENENO AO INVÉS DE SANGUE?
- Por isso, queria que você autorizasse-nos a fazer tal ato - o médico disse, estendendo ao garoto uma prancheta com uma folha A4 e letras miúdas.
Olhei para Justin. Eu chorava pior do que uma criança. Justin não havia feito um movimento sequer. Perguntei-me, internamente, se ele ouviu o que acabara de ser dito. Ele, sem expressão alguma, rabiscou sua assinatura na folha, devolvendo-a para o doutor.
- Obrig-gado. - O médico disse envolvido totalmente com a atmosfera paterna que havia se criado no ambiente. - Perdoe-me por ter sido falho... - e ele saiu.
O pranto de Justin se intensificou em um ímpeto. Em poucos segundos, seus soluços eram audíveis. Ele murmurava palavras que não podiam ser entendidas. E ele caiu. De joelhos. Meu coração se estrangulou com a própria veia, asfixiando-me por dentro. Ele cobria seu rosto com suas mãos, tentando (em vão) abafar seu choro. 
Ajoelhei-me a sua frente. Eu sentia sua respiração ruidosa e quente vir de encontro ao meu rosto, secando minhas lágrimas. Envolvi-o em meu abraço, invisível e insensível.
- Perdoe-me, Justin... - murmurei ao pé do seu ouvido, sentindo o cheiro cítrico de seus cabelos e seu 212 dopar minhas células respiratórias. Meus medos estavam se esvaindo por intermédio das minhas lágrimas e soluços. - Perdoe-me, my angel...
Ele se levantou e caminhou na direção da cama onde eu estava deitada, acariciando minha face levemente. E eu fiquei lá, chorando e caída, no chão frio do hospital.

x

Eu estava a trinta centímetros longe dele. Ele segurava minha mão e a acariciava. Lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto. Eu chorava silenciosamente também. Mas, convenhamos, eu podia estar desesperada, afogando-me em meu próprio pranto, que ninguém me ouviria. Meu corpo estava mergulhado em soro, remédios e doses de anestesia. Eu não sentiria dor. Mas meu espírito (o estado em que eu me encontrava) iria sentir. Não sei se conseguiria suportar a dor. A dor de ver que eu era um monstro. Uma assassina fria e cruel. 
O tubo transparente que saía do meu corpo e estava ligado a uma espécie de reservatório e motor me causava aflição. De repente, o maldito barulho invadiu o ambiente. O barulho era semelhante ao de um aspirador de pó. O tubo transparente rapidamente fora tingido de vermelho. Senti meus ossos das pernas desaparecerem e serem carregadas pelo meu sangue. Caí no chão, ainda chorando. Justin evitava olhar para o maquinário que fazia o "trabalho". Mas ele chorava mais intensa e audivelmente. O barulho se intensificou. Era os ossos do pequeno ser que estavam sendo triturados.
- O que eu sou? - Murmurei, chorando.
Alguns minutos, que pareceram milênios, depois, um silêncio aterrorizante e temido domou o ambiente. Acabou. Para mim. Para o Justin. Para o bebê.
It's over.

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