- Atira. Vai, ATIRA, sua vadia. - Ele dizia, tentando me persuadir. As palavras dele não iriam me atingir, não hoje.
- Você vai pagar. Por tudo o que você fez com a mamãe e comigo. POR TUDO. - Não sei de onde vinha a coragem para cuspir tais palavras. Por dentro, eu estava mais amedrontada do que rato na chuva de granizo.
Senti meu rosto arder forte, ele havia me diferido mais um tapa. O último. Fechei os olhos e tirei força do âmago da minha alma - ou de outro lugar desconhecido - e apertei o gatilho. Um barulho alto e abafado ecoou pelo pequeno bosque.
Acordei com gotículas de suor escorrendo pelo meu rosto, fazendo com que pequenos fios de cabelo grudassem em minha testa e bochechas. Droga. Os olhos flamejantes de Andrew não saíam da minha cabeça e eu o enxergava em todos os lugares que eu ia e que eu estive durante estes doze dias. Enxergava aquele demônio em todos os homens com que eu cruzava na rua e que, de certa forma, me remetiam a ele. Estava eu enlouquecendo?
Olhei para a mesa de cabeceira do meu quarto, onde pousava o rádio relógio. Os indicadores de LCD verdes fosforecentes indicavam que eram quatro e quarenta e seis da madrugada. Levantei-me, ainda cambaleando pelo sono que ainda me dopava. Será mesmo que ele iria fazer questão de voltar do inferno e me levar junto?
Caminhei até a mesa do computador e peguei um envelope que lá havia. O envelope que nesses dias eu li, reli, li de novo e continuaria lendo até que a tinta fosse sugada pelos meus olhos. Aquele envelope causou uma enorme confusão em meus pensamentos que ninguém era capaz de entender. Passei os olhos por este e aquela maldita palavra ainda estava estampada lá: positivo. Quantas noites eu não desejei que esta palavra se transformasse em negativo, ou simplesmente sumisse, levando consigo todos os as consequências de meus atos?
O que viria em seguida? Eu e uma criança, sozinhas no mundo. Eu e uma criança, abandonadas. Eu sem expectativas e uma criança sem futuro e infeliz. Eu infeliz. Lágrimas rolaram na extensão das minhas bochechas e se jogaram, num ato suicida, no chão. Por que comigo? Por que Deus só se lembrava de mim em um momento e me esquecia logo em seguida? Por que estava tão difícil viver? POR QUÊ? Justin não saía da minha cabeça, sua imagem, suas carícias e toques iam e voltavam em minhas memórias. As lágrimas desciam aos montes por meu rosto, fazendo provar aquele gosto de oceano que eu conhecia muito bem, mesmo tendo visto o mar poucas vezes. A neve e o vento batiam violentamente contra os vidros da janela do meu quarto, lembrando-me que não tinha como a noite ficar mais fria do que já estava. Lembrando-me de minha maior insegurança: Justin seria tão frio para comigo quando soubesse de tudo?
Desci as escadas que davam ao pavimento inferior da casa, que agora estava absorta em um silêncio aterrorizante. A tela e as tintas, no canto mais escondido da sala, prenderam minha atenção. Lá estava meu refúgio, a cobaia que sabia mais sobre meus sentimentos do que eu mesma. Lá estava pintado, de forma inacabada, Justin Bieber, com suas feições e detalhes perfeitos, com a sua pele em um tom branco, com as têmporas saudavelmente avermelhadas e seus lábios em um tom rosado. Seus cabelos dourados, sedosos, lisos e macios também estavam lá, em tinta pastel. Só faltavam os olhos.
Imediatamente, eles vieram à minha mente. Caminhei até a tela, corri-a com meus dedos, sentindo a textura e, junto com ela, sentindo de forma assustadora todo o sentimento que eu cultivava por ele. Segurei o pincel de pontas finas e o mergulhei no pote de tinha cor de avelã. Preenchi a circunferência que representava os olhos do Justin, dando-a uma cor semelhante ao que era realmente. Mergulhei na tinta preta e dei cor à sua pupila. Com a cor branca, dei um brilho semelhante ao que seu olhar emanava na realidade. Afastei-me da tela e a fitei.
- Nada igual comparado com o real. - Meu complexo de inferioridade julgou a pintura em voz alta. Eu sabia que nem se eu desejasse pintá-lo eu conseguiria, pois Justin era dono de tamanhos detalhes, perfeições e tons que eram impossíveis de retratar.
Subi as escadas, voltando ao meu quarto. Meu rosto estava mergulhado em lágrimas que não paravam de saltar dos meus olhos. Meus medos se expressavam por elas. Olhei para o banheiro e me lembrei que a minha salvação - ou penitência - estava lá. Em cima da pia. Caminhei, vagarosamente, até o banheiro. Lá estava, em sua totalidade, o pequeno frasco que eu comprara dois dias antes sob algum tipo de hipnose que o meu estado de desespero forçava em mim. Parei em frente à pia, ao espelho, ao frasco. Levantei meu olhar até o espelho. E lá estava, um zumbi, um monstro, uma assassina, uma garota sem alma, sem vida, sem coração. Com os olhos inchados, vermelhos, com as bolsas roxas por conta das olheiras, descabelada, com o rosto molhado. Lá estava o ser que eu havia me tornado. Algo pior que um monstro.
Como em um curta-metragem, uma criancinha linda, parecida com o Justin, corria pelo reflexo do espelho. Tinha os cabelos dourados, a pele branca, um sorriso terminantemente lindo e acalentador estampado na pequena e delicada face. Seus olhos, ao longe, brilhavam como se fossem duas gostas de mel reluzindo os raios solares. Quase dei para trás em minha decisão. Quase...
Meus olhos voltaram-se para o pequeno frasco em cima do mármore cinza da pia, ao lado da torneira. Peguei-o em um ato de desespero, como se minha vida dependesse dele. Como se o elixir que permitiria que eu sobrevivesse estivesse ali dentro. Abri-o, jogando sua tampa em algum lugar do banheiro. Eu não os poderia tomar sem um copo de água, mas quem se importa? Quem se importa como eles cairíam em meu estômago, sem ser dissolvidos em água? Eu não. Coloquei vários de uma vez, seis ou sete comprimidos. Abri a torneira e coloquei minhas mãos embaixo d'água que escorria como uma concha e levei a água a meus lábios. Não me pergunte como, mas os comprimidos e a água desceram direto pelo meu sistema digestório, sem serem analisados por minha língua e dentes. Não havia tempo para isso. Quanto mais rápido eu fizesse isso, menos sofrimento caberia ao pequeno ser e a mim.
Eu havia desistido de lutar contra o meu pranto interior. Deixei que ele saísse, de forma intensa e quente. O nó da minha garganta não ia se desfazendo com o pranto, ia se tornando mais enrolado em si mesmo.
Coloquei mais água em minha mão e repeti todo o processo várias e várias vezes. Eu havia acabado com o frasco e uma sensação de culpa caiu sobre mim. Eu estava tentando anular uma vida. Eu estava tentado impedir que um sorriso nascesse.
- Você é uma assassina! Não precisa este sentimento de culpa. Não há um coração batendo dentro da sua caixa torácica. Não há. - Uma voz robótica, firme, decidida e gelada ecoou pelo ambiente. Era o reflexo do espelho falando comigo. Era minha consciência.
Apoiei minhas mãos na pia, sentindo o mármore gelado tocar minha pele e causar pequenas diferenças entre nossa temperatura.
- SIM! - Gritei, contrariando a mim mesma. Eu estava enlouquecendo. Afinal, no que eu havia me tornado?
Eu vi mais do que um frasco de comprimidos em cima da pia, vi a chance de anular uma pequena vida. Em troca de quê? Da minha felicidade? Da felicidade do Justin? Do meu bem estar? Não sabia o real motivo de ter ingerido os comprimidos. Mas, agora, não tinha mais volta. Já tinha feito. Já era. Lágrimas saltaram dos meus olhos, mais uma vez, lembrando-me da maldita queimação que elas causavam enquanto corriam pelas minhas bochechas, mas elas se alojavam, agora, no canto da minha boca, fazendo-me provar da minha própria amargura. Fitei mais uma vez o espelho. O monstro duplamente assassino estava refletido lá. Lá estava eu.
- Eu vou para o inferno, mas te levo comigo. - A voz de Andrew tilintou em meus ouvidos.
- É o inferno que eu mereço. Mas não por ter te matado, e sim por matar um ser inocente e iluminado. - Falei, fitando os olhos intimidadores de Andrew. Ele voltara mesmo. Para me carregar consigo.
Seus olhos emanando ódio foram a última coisa que eu vi, antes de sentir, em um baque surdo, meu corpo tocando violentamente o chão gelado.

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